Não falamos sobre educação sexual

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Tema trabalhado de forma efetiva nas escolas poderia contribuir para a diminuição de índices de suicídio na infância e juventude

Por Diogo Cavazotti Aires

Crianças e adolescentes passaram a aparecer com maior frequência e quantidade no ranking mundial de suicídios. Ele já é a segunda causa de morte entre pessoas de 15 a 20 anos, perdendo apenas para acidentes de carro. A Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) registrou que 79% destes casos estão concentrados em países de baixa e média renda. Na Argentina este número aumentou três vezes nos últimos 30 anos. O Brasil teve 10.575 suicídios em 2016. Deste total, 0,5% foram crianças de 5 a 9 anos e 8,02% adolescentes de 10 a 19, totalizando 875 episódios. Os dados são do Ministério da Saúde. Vale lembrar que existem casos subnotificados, onde o registro da morte aparece como acidental. Afinal, o suicídio ainda é um tabu. “Há indícios de que este número pode ser 2 ou 3 vezes maior”, conta o psicólogo e antropólogo Célio Pinheiro.

Jovens de países em desenvolvimento estão no topo do ranking de suicídio.
Fonte: OMS 2014

Segundo especialistas, as causas do suicídio na infância e adolescência passam por transtornos mentais, uso de drogas (incluindo bebidas), bullying, dificuldade em lidar com frustrações, violência e as próprias mudanças físicas e comportamentais que acompanham esta fase da vida. Se as questões são distintas, como tratar e tentar resolver o pensamento suicida de uma criança e um jovem? A abordagem precisa ser diferente para cada caso. O suicídio em adolescentes indígenas, por exemplo, apresenta índices muito acima da média. No Brasil é registrado um caso a cada três dias. Segundo a Universidade de Columbia (Estados Unidos), adolescentes lésbicas, gays, bissexuais e transexuais são cinco vezes mais tendentes a se suicidar. Jovens grávidas estão mais propensas à depressão, com possíveis idealizações suicidas. Apenas três grupos citados, diversas maneiras de tratar.

Autoconhecimento como forma de prevenção

O suicídio é uma forma de comunicação e é considerado uma fuga. Comunicação de um grande sofrimento e fuga da realidade. Uma dor que, nesta faixa etária, vem acompanhada de descobertas e dúvidas. Em 2018, um menino de 8 anos cometeu suicídio em Denver, nos Estados Unidos, quatro dias após se assumir gay na escola. Não suportou o bullying. Em 2015, um jovem de 16 anos chocou a Colômbia ao se matar após sofrer com o preconceito no colégio. Em ambos os casos, que certamente foram registrados em outros lugares mas, novamente, sofreram subnotificação, mostram uma curiosa semelhança: o ato envolveu colegas de classe. Ou seja, o atendimento e prevenção pode ser ampliado e envolver também os que estão ao redor. De qual forma? Uma educação sexual eficaz e integral. Autoconhecimento para uma fase de mudanças e dúvidas.

No Brasil, ao contrário de alguns países desenvolvidos, a educação sexual nas escolas não é compulsória. A Holanda aborda este assunto a partir dos 4 anos de idade. Por aqui, às vezes ela é lecionada, às vezes não. E quando é, muitas vezes não cumpre o papel desejado. É restrito no ensino de como engravidar, qual a função da menstruação e como prevenir doenças sexualmente transmissíveis (DSTs). Temas importantes, mas que não abrangem todas as necessidades do jovem.

A psicóloga e mestre em educação Shani Falchetti Menandro defende a ampliação do tema nos espaços frequentados por este público. “Há, atualmente, uma necessidade emergente de avançar no debate sobre educação sexual na infância e adolescência. E a escola, assim como a família, tem um papel fundamental na formação de uma conscientização sobre o tema”. De acordo com a profissional, o conhecimento sobre a sexualidade deve ser construído, gradativamente, desde a primeira infância até a fase adulta. “As crianças também precisam saber sobre sexualidade e construir, aos poucos, um conhecimento sobre o próprio corpo”. Shani exalta a necessidade de investir na capacitação docente e em projetos que aproximem a família da escola, com o objetivo de transformar padrões sexuais discriminatórios e promover um novo olhar sobre a diversidade sexual e as várias formas de expressá-la.

Centro de Valorização da Vida (CVV) e Unicef Brasil lançaram recentemente uma série de vídeos para prevenir casos de suicídio entre crianças e adolescentes

Como a educação é estudada

A diretora pedagógica do Sistema Positivo de Ensino, presente em mais de 2 mil escolas do país, Acedriana Vicente Vogel, explica o pensamento da instituição sobre o tema. “Por se tratar de um assunto que diz respeito à natureza humana, é de suma importância que esteja presente na educação básica, dando continuidade ao processo educacional desenvolvido pelas famílias. Escola e família precisam estar alinhadas para que ambas se complementem e se apoiem nessa abordagem”.

A reportagem conversou com uma jovem de 13 anos que não quis se identificar e que estuda no Positivo desde a infância. “A única aula sobre o tema foi no 7º ano, quando tivemos um encontro isolado e a presença não era obrigatória. Poucos alunos foram e os outros ainda riam de quem participava. Eu assisti. Foi interessante, mas ficou apenas nas informações de gravidez, doenças e fases da vida da mulher”. Neste período, o tema também não foi abordado com os pais da jovem.

Acedriana conta que há muita dificuldade por parte dos pais em tratar da temática. “Em alguns casos identificamos até um constrangimento. Há uma certa resistência porque sabem que, se a escola entrar no assunto, terão que dar continuidade em casa”. Ou seja, vergonha de conversar sobre sexualidade com o próprio filho ou filha.

Se a educação sexual é feita de forma inadequada, com o tema suicídio não é diferente. Ainda há o indicativo de que não abordar a questão é a melhor saída, justamente o contrário do que especialistas pregam. “Não gosto de falar sobre suicídio. Não sei se fazemos certo. Os adolescentes adoram irreverência e com este tipo de mídia eles conseguem. Precisamos ter cuidado”, diz a diretora da escola particular Atuação, Esther Cristina Pereira.

Em contrapartida, é justamente lá que aparecem projetos curiosos sobre sexualidade. No 7º, 8º e 9º anos os alunos recebem um pintinho e passam 15 dias com o animal. O intuito é que as crianças entendam a complexidade de cuidar de um ser vivo. Durante a experiência os jovens assistem palestras com ginecologistas, obstetras, psicólogos, advogados e mães que tiveram filho cedo. O intuito é trabalhar a gravidez precoce. “Temos 20 anos de projeto e nenhuma gravidez antes dos 27 anos de idade, o que nos alegra em demasia”, comemora Esther. Um exemplo de sucesso, mas centrado em apenas uma das diversas necessidades que envolvem a descoberta da sexualidade.

No ensino público a realidade não é diferente. Um centro de socioeducação no Paraná que trabalha com menores infratores privados de liberdade não oferece aula de educação sexual para os meninos pois não há professor de ciências disponível para eles. Esta disciplina geralmente é a escolhida para centralizar o assunto sexualidade. O público que frequenta estes centros é composto, na maior parte, por jovens, meninos e meninas, com baixa escolaridade, usuários de drogas, portadores de DSTs e, muitos deles, já pais e mães. Um ambiente primordial para este debate. Entram e saem sem esta informação.

Na Escola Estadual Dom Orione, em Curitiba, foram realizados diversos projetos nos últimos anos, mas um em especial se mostrou mais eficiente. “Uma médica de um posto de saúde reunia jovens uma vez por semana para passar informações importantes sobre sexualidade. Estes alunos viravam multiplicadores para os demais. Foi bastante contundente. Mas a médica foi transferida e o projeto acabou. Ele era importante pois havia uma especialista em saúde na linha de frente”, explica Maria Ivonete Favarin Vendrametto, que foi diretora do espaço por 22 anos.

CVV também possui vídeos destinados aos pais e professores. Eles estão disponíveis aqui

Vida

A sexualidade faz parte da vida do indivíduo desde o nascimento até a morte. E na adolescência, quando as descobertas são feitas, nem sempre o papel dos pais é praticado de forma efetiva, segura e com conhecimento. Se o jovem não recebe informações em casa nem na escola, ele encontra este tema em filmes, séries e, claro, internet, nem sempre os canais mais adequados e eficientes neste momento. Um estudo realizado por universidades e hospitais dos Estados Unidos concluiu que a série “13 Reasons Why” esteve associada a um aumento de 28,9% de suicídios entre crianças e adolescentes naquele país. A história narra a trajetória de uma jovem que se mata por acontecimentos ocorridos no âmbito escolar e na vida. O episódio final é quase uma aula de como se suicidar.

O psiquiatra da infância e da adolescência Daniel Rufato se depara com questões suicidas nesta faixa etária e, na maioria das vezes, os atos envolvem reclamações semelhantes. “Tristeza, raiva, solidão, falta de compreensão. É notável o sentimento de desesperança e imutabilidade que estão vivendo”. Difícil viver em um mundo onde não se é compreendido e com dificuldades de inserção social, principalmente quando não se tem informações necessárias nesta fase da vida.

A Organização das Nações Unidas (ONU) desenvolveu instruções sobre como abordar a educação sexual com este público. Como trata-se de uma ciência, é necessário que o programa tenha a participação de especialistas em saúde. A abordagem também deve incluir questões de diversidade e gênero, como forma de promoção ao respeito. Os pais precisam estar inseridos, para que o processo de conhecimento continue em casa. E, o mais importante, a educação sexual também pode estar inserida em outras disciplinas, de forma transversal, para que o tema deixe de ser um tabu e possa estar mais próximo do cotidiano dos alunos e alunas.

É evidente que o assunto ainda é controverso. Algumas escolas e pais apresentam resistência sobre o assunto e acham que abordar a educação sexual na escola, sobretudo em idades mais baixas, pode causar uma erotização acerca do sexo e antecipar experiências na vida do jovem. Entretanto, a educação sexual sugerida pela ONU, assim como acontece na Holanda, respeita cada faixa etária e fase da vida do cidadão, de forma que ele obtenha o conhecimento necessário de acordo com o crescimento.

As escolas têm um papel fundamental, assim como as famílias, de identificar e ajudar jovens nestas situações. No entanto, a maioria dos contextos escolares não tem planos de prevenção ao suicídio tampouco uma abordagem mais elaborada para educação sexual e acabam atuando de forma mais reativa que preventiva.

Se a educação sexual é fraca e ineficaz em boa parte dos sistemas educacionais, pode ficar completamente nula. O projeto de lei Escola Sem Partido, em trâmite no Congresso Nacional, não versa apenas sobre doutrinas políticas. Uma das diretrizes aborda os valores familiares, que passariam a ter prioridade sobre a educação, seja moral, religiosa ou sexual. Ou seja, sexualidade não faria parte do currículo escolar e o tema deveria ser tratado, ou não, em casa. Ideologia de gênero e orientação sexual ficariam vetados do ambiente educacional.

O caminho é longo, mas necessário. Uma educação sexual de qualidade contribui para o entendimento do próprio corpo e das possíveis maneiras de relacionamentos e manifestações sexuais. E quando o jovem sabe quem ele é, consegue encontrar seu lugar no mundo, sem querer ir embora mais cedo.

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Jornalista há 15 anos com trabalhos realizados em jornais, revistas, internet, televisão e comunicação organizacional. Teve trabalhos de reportagem e assessoria de imprensa vencedores em diferentes prêmios de jornalismo. Escreve sobre os mais variados assuntos, por mais que prefira tudo que envolve direitos humanos. Crédito foto: Kraw Penas

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